Diga-me como você se expõe e eu direi qual é o seu vazio

Elisabete publicava selfies em seu Facebook exaustivamente. Paulo trocava de namoradas diariamente. Beatriz limpava a casa exageradamente. João comprava tudo o que via incansavelmente. Felipe comia compulsivamente. Carla monitorava a vida alheia inesgotavelmente. Marcos poupava dinheiro neuroticamente. Joana fumava insistentemente. Você já percebeu que em cada excesso mora uma falta? Escondemos nossos buracos internos publicando selfies excessivamente, competindo silenciosamente pelo melhor carro ou closet, controlando ou vigiando a vida alheia, se exercitando ou trabalhando exageradamente, comendo ou chorando demais. Viver é conviver com faltas, com incompletudes que de vez em quando nos visitam de forma mais aguda e intensa, e em outros momentos, desaparecem.

Sabe aquela sua tia que não sai do celular, sua sobrinha que come exageradamente ou aquela sua amiga que compartilha a vida inteira no Facebook? Não adianta pedir para ela se desligar do celular, comer menos ou parar de publicar tanto, não adianta simplesmente porque é preciso olhar mais profundamente. É preciso olhar com empatia para buscar as faltas que cada excesso tenta encobrir. Faz parte da condição humana, que é limitada e cheia de conflitos, a sensação de incompletude. Faz parte de nós o desejo de pertencimento, a insegurança, o apego, a angústia. No entanto, em alguns momentos, essas sensações ficam mais latentes e, sem nos darmos conta disso, muitas vezes lidamos com nossas carências de forma distorcida.

Se preocupar com aqueles que você ama, falar das próprias qualidades, abastecer a despensa, comprar aquilo que lhe agrada, ficar conectado à internet, publicar fotos, tomar uma bebidinha de vez em quando.. é absolutamente normal. O problema é quando tudo isso começa ser feito de forma exagerada e se torna excessivo. Quando passa a atrapalhar nossa vida e daqueles que nos rodeiam. É preciso olhar com compaixão para a própria vida. É preciso entender o porquê daquela ansiedade, daquela insegurança, daquele apego. É preciso desistir de nos cobrar atitudes diferentes quando ainda não nos libertamos das causas daquele comportamento.

Se fosse tão simples parar de comer qualquer um conseguiria se submeter a regimes drásticos em pouco tempo. Se fosse tão fácil parar de limpar uma casa ou acumular coisas exaustivamente, não haveria transtornos como o TOC. Se fosse tão simples deixar de se apegar exageradamente a tudo e a todos, não haveria tantos livros de autoajuda ou métodos de relaxamento. Vez ou outra estaremos nos excedendo em alguma coisa, e isso nem sempre é ruim. O empenho em sermos bons naquilo que amamos fazer, a energia que empenhamos para concretizar nossos planos, a persistência naquilo que buscamos, tudo isso é necessário. No entanto, é preciso separar aquilo em que concentramos nossas energias para a realização de algo bom e aquilo em que gastamos nossa energia como uma fuga dos nossos problemas reais.

Precisamos aprender a olhar de outro jeito para as pessoas, com mais empatia, com mais afeto. Entender que nem sempre aquele excesso que incomoda tanto – excesso de exposição, de arrogância, de intolerância – é um sinal, uma falta – falta de amor, atenção, coragem, segurança, força. E assim, aprender a desvendar a si mesmo também, fazendo a si próprio a derradeira pergunta: que falta meu excesso esconde?

Espero muito que vocês gostem, um super beijo e até o próximo post!

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