SER ou TER?

Nossa memória é falha, nossa bagagem não eterniza todas as nossas lembranças como pensávamos, muita coisa é esquecida no meio do caminho. Quando nós nascemos, morávamos dentro de nós mesmos, literalmente: nosso corpo era nossa casca, nossa casa. Éramos recém-chegados nesse mundo, crescíamos gradativamente dentro do ventre de nossa mãe, onde era abastecido com tudo o que precisávamos, não havia preocupações, exceto crescer para um dia nascer, e quando nascemos, nossos olhos se abriram para uma realidade totalmente diferente. Preso dentro daquele pequeno e indefeso corpo, que ainda não tinha muitas habilidades, nos encontrávamos numa situação de dependência, mas ao mesmo tempo, estávamos ali, com o espírito livre, dando continuidade ao tempo passado no ventre: sendo simplesmente quem somos.

Naquela época, vivíamos com o corpo, o coração, a mente e a alma juntos no mesmo lugar, em uma unidade consigo mesmo, mas também com o mundo à nossa volta, com o universo, com tudo. Em outras palavras, éramos felizes. Nossos primeiros anos de vida são os mais leves de nossa existência. Não existe consciência pesada, dias ruins ou problemas que ninguém sabe se realmente virão no dia de uma criança. Elas vivem o aqui e o agora, não o passado ou o futuro. Quando sofrem, sofrem por causa do presente. Para as crianças, o centro de tudo é o próprio centro e é dali que elas, centradas, observam e exploram o mundo e começam a aprender coisas novas, muitas coisas novas.

Ser criança é ter fome de saber e essa fome é saciada pelas descobertas que acontecem todos os dias, que vão lhe preenchendo e ajudando a entender como é que o mundo lá fora, o mundo dos adultos, funciona. Nunca deveríamos deixar de descobrir as coisas. Mas, deixamos. Uma criança que se nutre de coisas novas, nunca se estagna. Seu desenvolvimento aumenta conforme a qualidade de coisas novas que ela descobre e aprende. Tudo estará bem enquanto essas coisas servirem para fortalecer a criança em seu centro, em sua verdadeira personalidade e na sua unidade consigo e com o todo. Os problemas começam quando a criança sai de si mesma para descobrir as coisas do mundo e se identifica com elas, passando a acreditar que essas coisas seriam parte dela ou, ainda mais grave, que ela seria essas coisas.

Não demora muito para a criança ganhar um brinquedo, ou qualquer coisa que seja, de presente. Pode ser que outras crianças também estejam desejando o mesmo brinquedo, surgindo, de um lado, a inveja das demais crianças e, do outro, o orgulho que uma criança sente de ter algo tão cobiçado por outros. Assim, a criança começa a se identificar com as coisas que ela tem, caindo numa armadilha que na pior das hipóteses a fará sofrer pelo resto de sua vida: ela confunde ter com ser, acredita que é o que ela (ou sua família) possui materialmente e estrutura toda sua vida de uma forma que possa administrar bem seus pertences ou adquirir outras coisas para ter mais, convicta de que também assim seria mais.

O tempo passa e a situação só piora. Outras coisas tomam conta daquela criança e, mais tarde, do adulto: novos brinquedos, a roupa de marca, o carro, a casa, o saldo no banco.. O resultado são pessoas infelizes por sempre acreditarem que nunca têm o suficiente, que precisam sempre de mais, pois, ao se identificar com coisas, uma pessoa crê que precisa ter mais delas, já que o ter substituíram o ser e as coisas substituíram a essência desse ser. Em outras palavras, ao se afastar de si mesma e se identificar com coisas, a pessoa se esvazia e tenta compensar esse vazio com mais coisas. É um círculo vicioso, que não para mais.

Correr atrás de coisas custa tempo e energia e, o pior de tudo, nos afasta de nós mesmos, de nosso centro, de nossa essência. É correr atrás de uma ilusão. E, assim, isso jamais nos tornará feliz. Se você olha para a sua vida e percebe que viveu até agora assim, se identificando com coisas, mais preocupado com ter do que realmente ser, não precisa se envergonhar disso, pois você foi condicionado a tal. Você só seguiu exemplos à sua volta, você imitou aqueles que pareciam saber o que estavam fazendo e assim você terminou seguindo o mesmo caminho.

Foi assim até agora? Então foi! Mas esqueça-se do passado. Você não é as coisas que tem na vida. Você é um ser livre que carrega em si tudo que precisa para ser feliz. Ainda é tempo para desapegar das coisas e voltar a ser você!

Espero muito que vocês gostem, um super beijo e até o próximo post!

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