Como morar fora do Brasil, do planejamento até a mudança

Acho que toda pessoa tem dentro de si aquela vontade de explorar o mundo, conhecer novas culturas, novas pessoas, novas comidas e novo ares. Esse mundo é tão imenso, fico imaginando a quantidade de lugares incríveis que a gente pode conhecer!  Eu tenho o sonho de conhecer diversos lugares, dentro do Brasil e fora dele, um deles é a França, que é onde a Ju Garzon mora, hoje ela foi nossa entrevistada e contou como foi deixar o Brasil e viver em um outro país.

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Sou a Ju Garzon e tenho 26 anos. Fui morar fora do Brasil pela primeira vez em 2012, aos 21 anos, logo após me formar na faculdade. Fiquei em Chicago (USA) por três meses maravilhosos. Era a primeira vez que saía da casa dos meus pais e aproveitei ao máximo a experiência que era o sonho da minha vida. Lá, algo totalmente inesperado aconteceu: conheci aquele que há menos de um mês tornou-se o meu marido. A partir daí foi uma emoção atrás da outra. Ele é francês e depois de considerarmos todos os cenários possíveis, resolvemos que eu me mudaria para a França. Isso foi em 2013 e estou aqui até hoje.

1. Como surgiu essa vontade de morar fora do país? Você foi sozinha?

Sempre gostei de viajar, de pegar a estrada nas férias e ir para algum lugar diferente. Esse desejo só foi aumentando com os anos e ficou ainda maior depois da experiência nos EUA. Vir para a França foi uma decisão emocional, mas não apenas. Considerava que, mesmo se o relacionamento não desse certo e tivesse que voltar para o Brasil, teria sempre um lar e boas relações profissionais. No mínimo, voltaria falando francês (idioma que não conhecia) e com mais uma experiência de formação no exterior para colocar no currículo.

Vim sozinha, com a minha vida em duas malas. Deixei família, amigos e profissão para trás. Tudo isso porque não suportaria ficar e viver considerando “e se eu tivesse ido?”. Tive a oportunidade, considerei e tomei a decisão.

2.Como você se programou para essa mudança?

Nos demos o prazo de um ano para colocarmos a vida em ordem após o retorno dos EUA e morarmos juntos. Desde a minha volta eu trabalhei muito e guardei todo o dinheiro, sabendo que viriam muitas despesas pela frente. Comecei um curso de francês e pesquisei sobre o procedimento do visto, já que resolvi vir inicialmente como estudante por um ano. É uma fase complicada e às vezes falta informação, por isso fiz até um guia sobre como conseguir o visto francês para estudantes no blog. Fiz muito esforço e tentei me organizar o máximo possível. Mas é importante dizer que não teria conseguido sem o apoio dos meus pais em todos os sentidos possíveis, do financeiro ao emocional.

3.Com essa mudança tudo mudou, a cultura, as comidas, os hábitos. Qual foi a maior dificuldade que você enfrentou?

Realmente tudo mudou, mas sem dúvida a maior dificuldade foi a diferença no comportamento das pessoas. Moro em uma região (Nantes, Pays de la Loire) onde o comportamento é ainda mais particular, mas de forma geral, as pessoas são realmente mais “frias”. Sinto que aqui na França, ninguém se preocupa com o outro e pouquíssimos vão parar o que estão fazendo para te ajudar. Fica pior se você falar o idioma com um sotaque e quase impossível se você não falar francês.

Claro que generalizo nas minhas respostas, nem todas as pessoas são assim. Porém acho correto dizer que é sim o comportamento da maioria. Por exemplo, tenho vívida a memória de quando fui comprar sorvete pela primeira vez. Pronunciei menta como no inglês (“mint”) e não como no francês (“ment”) e o atendente fez questão de me corrigir na frente da fila inteira, mesmo que tivesse entendido o pedido. Eles são muito rígidos e acredito que isso deve chocar particularmente aqueles que, como eu, estão acostumados com o “jeitinho brasileiro”.

4.Os estrangeiros realmente tem preconceito com os brasileiros? Você já sofreu algum?

Não havia sentido nada disso nos EUA, mas aqui na França os clichés brasileiros de favela, samba e futebol são tão fortes que fica difícil você provar (nem deveria sentir necessidade disso para começo de conversa!) que a cultura brasileira vai além daquilo. Ainda há uma falta geral de informação sobre o Brasil e essa ignorância me obrigou a ouvir muitos absurdos.

Além dos comentários listados no post linkado, já tive que ouvir de um colega de classe do Mestrado que já que a entrada no segundo ano era seletiva, eles deveriam começar eliminando os “imigrantes ilegais”. Eu era a única estrangeira da classe. Machuca, sabe? Por aqui é assim, as pessoas falam sem filtrar e muitas vezes usam o “humor francês” como desculpa para comentários desnecessários e ignorantes. Só para finalizar a história do menino: no fim das contas, eu passei para o segundo ano e ele não.

Acho que o preconceito não é dirigido ao brasileiro especificamente, mas sim a todo estrangeiro. Aliás, eles não gostam nem de pessoas de outros departamentos (equivalente aos estados brasileiros), então imaginem!

5.Em quais aspectos você sente falta do Brasil?

Desconsiderando a saudade da família e dos amigos, que acredito que é bem óbvia, sinto muita falta de poder puxar conversa com qualquer pessoa na rua. Como disse, a região onde eu moro é particularmente difícil. Eu não posso, por exemplo, elogiar a bolsa de uma moça e perguntar onde ela comprou porque ela já vai me achar extremamente estranha e suspeitar que quero pegar a bolsa dela.

A cultura daqui é muito diferente e eu não sabia disso, achei que seria fácil como nos EUA, então demorei um bom tempo para me acostumar. Hoje já não ligo mais para coisas que me incomodavam no primeiro ano, por exemplo. Mas a integração ainda está longe de ser ideal. Tenho a sorte de ter um marido compreensivo (até brinco que ele é um francês paraguaio hahaha) e de ter sido bem acolhida pela família dele.

6.Muitos brasileiros tem o sonho de sair do país, por achar que o custo de vida e os empregos são mais valorizados fora daqui. Isso realmente é verdade?

O custo da vida na França é particularmente alto, ainda mais se comparado com Portugal, por exemplo. Quando moramos aqui, ganhamos em euros mas também gastamos em euros. Não existe mais conversão de moeda. Achar que vir aqui é sinônimo de ficar rico é uma ilusão – salvo, claro, as famosas exceções.

Por outro lado, a qualidade de vida é realmente melhor. Temos mais sensação de segurança (porque a segurança efetiva está mudando) e uma assistência financeira quase que incompreensível da parte do governo. A educação, mesmo de nível superior, é muito barata e as despesas médicas são reembolsadas. Não é à toa que resolvemos morar aqui ao invés do Brasil ou mesmo dos EUA, apesar de todas as dificuldades de adaptação. Aqui, um jovem casal que sabe administrar as finanças consegue viver tranquilamente e ter bens materiais de qualidade com apenas um salário, sem depender da ajuda dos pais. No Brasil, sabemos que é muito, muito difícil com dois salários!

7. Qual seu conselho para quem tem vontade de morar fora do Brasil? 

Se você tem estrutura e conforto no Brasil, não jogue tudo pela janela em busca de uma aventura. Viver no exterior é diferente de viajar e voltar para casa. A vida tem dificuldades em todos os lugares e você não pode fugir delas. Fico um pouco brava quando as pessoas entendem que moro na França e dizem “que chique”! Sim, é muito chique se você pensa num apartamento no centro de Paris e num dia de compras na avenida Champs-Élysées, só que esta só é a realidade de, sei lá, 0,5% da população. O dia a dia é outra coisa. Faça uma decisão consciente, pense nos prós e nos contras, pois sempre existem os dois lados.

Se morar fora ainda for a melhor opção para você, então vá. Sei que parece contraditório, mas também aconselho a não ter medo. Se você pensou bem, se planejou e tomou a decisão, então vá fundo! Essas experiências e dificuldades me fizeram amadurecer, a ter mais empatia, a ser mais responsável e a agregar cada vez mais capacidades para enfrentar o que ainda vem pela frente.

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É gratificante conhecer histórias incríveis como a da Ju, fico ainda mais feliz por saber que ela quis dividir tudo isso aqui no nosso cantinho. Ah, ela tem um blog sensacional chamado Madame BR, onde ela compartilha ainda mais essa experiencia. Obrigada Ju, por ter aceito partipar! ❤

Espero que vocês gostem, um super beijo e até o próximo post. 🙂

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